segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Copycat

(li isso num blog de uma amiga e gostei muito. Tem a ver com meu momento. Reproduzo aqui com algumas modificações)


Trilha perfeita para não existir
de Black Mamba


não. não era sua voz ao telefone. não. você não pediu para que eu ficasse. não. você não comentou sobre o meu sorriso. não. você não tem saudade do meu abraço. não. você não viu o meu cabelo. não. será que entende a solidão? não. até sabe que eu existo, mas não. não. não procura as minhas mãos. não. não deseja mais a minha boca. não. não entende o quanto eu choro. não. não entende porque eu choro.

Mais ao sul

O menino se olha no espelho e morde o lábio inferior. Ele está confuso novamente. Ele tenta pensar no que aconteceu nesse último mês e começa a viajar nas ondas do passado quase presente. Foi como se fosse ontem, mas ele tinha apenas 13 anos. Bom, ele estava longe de ter apenas treze, mas a sensação era essa. Tenho 13 pra sempre? Ele desviou o olhar e maneou a cabeça. Não, é só uma ilusão preciosa. Uma deliciosa jornada a antigos sentimentos e traumas já cicatrizados. O menino tinha perdido a noção do quão suculento uma paixão poderia ser. A mão suando, a voz, as palavras de carinho, como grossas gotas de chuva num deserto, na aridez de sentimentos onde ele havia feito sua morada nos últimos tempos. As gotas grossas caindo e ele se deitou na areia quente, sentindo todo seu corpo ser fustigado e presenteado com gotas que o confortavam a tal ponto que ele decidiu se despir e deixar sua pele sentir aquela mistura de areia, vento e água num ploc ploc ploc. Uma caiu bem nos seus lábios e ele passou a língua por ela, sentindo um prazer estranho porque constatou que se tratava de uma água salgada. Ele ria da improbabilidade de chover salgado, mas não se incomodou com aquilo. Sendo ele quem era, o menino não tinha do que reclamar. Ele já havia visto coisas muito mais admiráveis. Assim, o menino se pos alerta. Logo a chuva ia passar e o deserto iria desabrochar em brotos por todos os lados. Afinal, aquele era um deserto, mas a terra era fértil, quase vermelha, sangue e areia, terra estranha onde nem se precisa plantar para se obter em abundância.
O menino volta para casa e toma nos braços o bebê que havia ali. O bebê não chorava, mas dormia o sono dos justos e sonhava e o menino se lembrou como ele havia feito o bebê. Era uma espécie de gravidez forçada, talvez fruto de algum estupro do destino. Ele não se lembrava na verdade, mas passava dias e dias procurando a origem daquele ser pequeno e dependente. Ele o embalava e cantava músicas que nem sabia que ainda sabia. Letras esquecidas que devem ter sido passadas de pai para filho há gerações. Que ficaram marcadas em seu subconsciente. O bebê sorri para o menino, e por um segundo, ele não sabe dizer bem se o sorriso é de escárnio ou de felicitações. Um menino e um bebê perdendo a noção de ironia, de realidade. Será toda essa cena uma brincadeira? O bebê está quente, seria febre? Mas ele continua dormindo placidamente, ignorante do mundo louco onde ele está e do destino que o espera. Sonhando e sorrindo.
O menino decide despertá-lo. Ele sacode de leve e o bebê acorda num sobressalto. está na hora de tomar banho, meu amor. Ele vai despindo o bebê e vai se lembrando de como havia sido gostoso esta nu no deserto sendo fustigado por apetitosas gotas grossas de chuva. Será que o bebê iria gostar, ou as gotas deixaram marcas roxas em sua pele delicada e sensível? Era um bebê esperto, que sabia das coisas do mundo e ele olhava agora curioso para o menino, que se envergonhava um pouco daquele olhar tão franco, penetrante e insolente. Ele já havia passado por tanta coisa e o bebê era um ser que do mundo sabia tão pouco. Mas ele era sua única companhia naquele deserto, naquele ermo. Por que ele tentava ajudar o menino? por que ele tentava amar o menino e mudá-lo? Como ele era tão forte se sua carne deveria ser mole e sensível? Por que esse bebê não chorava? Talvez tivesse sido ele que havia chorado as gotas da chuva, mas não havia gritos nem fome. Conseguiria um bebê chorar apenas lágrimas em silêncio? Com uma das mãos o menino manteve o bebê firme e com a outra em forma de concha ele foi pegando a água e molhando os cabelos do bebê que talvez abundassem mais que os seus. Jogou água no rosto, nos ombros, e em todas as partes que não estavam submersas. E ele fechou os olhos por um instante e rezou. Rezou para que ele tivesse discernimento e não jogasse fora o bebê com a água do banho.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

De lírios - Parte V e final

(continuação Parte IV)...

Ela agora faz parte da confusão... da solidão... do vazio..... do nada.
Olha pra si mesma, um ser patético coberto de sangue e hematomas, e sente muito, se encolhe, sente por ser tão frágil, tão incompleta, tão sem sentido....
Ela se esforça, tenta de todas as maneiras se reconhecer, se pertencer, mas é em vão.
Esta não é ela. Não pode ser. Não é. Os pensamentos desordenados, a cabeça latejando.
Ela quer gritar, se libertar. Inútil. Ela já não tem mais forças, e abraça a si mesma.
Finalmente as lágrimas caem. Rolam por sua face, molham seu corpo numa tentativa inocente de lavar a alma, apagar a dor que a consome, se fortalecer e se recriar.
Ela levanta o olhar como se seus olhos pesassem mil quilos e contempla a luz do sol que cruza as grades. Fixa o olhar e tenta criar forças, se levantar. Ela se recorda do azul e do perfume dos lírios, ele se torna cada vez mais forte, mais real.....
As flores brancas, o campo, o vazio... a dor.... ele.... mas quem é ele? Quem foi? Quando?
Por quê?...... As perguntas atormentam, batem com força, insistentes, porque sim..... Ela volta a abraçar a si mesma, se encolhe, sofre, chora, se aperta, fecha os olhos e implora por paz, implora por um sono eterno. O silêncio é cortante, o perfume mais forte. Ela abre os olhos e
vê um par de asas negras.
Suas asas. Elas batem forte, automaticamente a elevando aos céus, numa velocidade estrondosa, em direção às estrelas. Ela se sente um novo cometa e sente que está voltando para casa. Ainda que sinta a umidade das lágrimas na face, e não consiga afastar do pensamento o cheiro dos lírios que lhe enchem as narinas, ela sente que sua missão terminou e isso a alegra.
Ela voa mais alto, mais rápido, quase não consegue ver as estrelas. Um anjo, uma deusa, vários poderiam ser seus nomes. Ela começa a sentir a humanidade que lhe constituía esvair-se do seu pensamento. Ela não é mais humana, não é mais mulher. Ela aprendeu a lição que ele lhe havia proposto, a grande mente que arquitetou os universos. Ela que não conseguia entender o ser humano, que observava.E não se sentia compelida a agir, ela havia sido humana, uma mulher e sentido em sua essência a dor e o vazio. Mas agora ela sabia, ela havia sido mulher e, por isso, havia concebido. Logo, a dor e o vazio seriam combatidos e eliminados. Só sobraria o cheiro dos lírios. E o amor.

(fim)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Terra Prometida


Finalmente o menino voltou de sua peregrinação. Ele traz tanta coisa na bagagem. Mas ele ainda não pode dizer nada. Sua voz calou diante das belezas do mundo e dos seus mistérios.
Ele viu a queda de suas convicções e viu que não era mais o mesmo que sempre havia sido. Menino tolo se deixa levar pelas ondas do mar e pela correnteza do rio. Sua vida vira material de musicais. Toda música se parece com ele.
Menino peregrino foi até onde se levanta um muro de lamentações. Viu guerreiras caindo uma a uma, por amor ou por desamor. Pobres guerreiras. Mulheres de fibra que são mais do que meras sombras, são luz e calor. Mas elas tombam diante do Inimigo. Elas cobram seus dízimos e se deixam dizimar.
O menino volta com a vontade renovada. Ele volta sabendo que ele falhou e não falou, ou falou, mas ainda assim, precisa ir além e precisa soltar o pé, voar e voar até suas asas doerem.
Pra quem tem duvida, eu sou o menino. Ou ele sou eu. A ordem realmente não está bem estabelecida por aqui. Acho que nem o progresso.
Menino louco que só quer ser entendido. Que só quer sossegar os ossos e a mente. Que está encontrando a paz a cada dia, apesar de saber que estamos em guerra. Todo dia em guerra, contra um mundo cão que quer nos morder, não, nos devorar até não sobrar nem os ossos.
E o menino vai vivendo no automático e vai se deixando levar pelas coisas que a vida vai dando pra ele apesar de que ele busca coisas que acha serem as melhores agora que está no prime de sua vida. Ele caça como não caçava há anos e fuça e espera e conversa e não dá em nada como sempre mas ele parece ter mais esperança que sempre teve apesar de ser uma poliana desde quando se lembra de ser. Eu já falei das músicas? E o pior pra ele é que todas as músicas que tocam parecem ser mensagens em uma garrafa, ele abre e lê e sabe que é pra ele, mas não pode ficar aqui colocando tantas frases citações de todas essas pessoas que falam de si mesmo e dele ao mesmo tempo. Ele tem vontade de deixar vir à tona o dragão que habita suas entranhas e ele tinha colocado pra dormir por falta de utilidade. Agora ele acorda e solta seu fogo, ruge e esbraveja e nada, nem a escrita, nem a letargia dos momentos gastos em vão conseguem tirar de si as certezas.
E eu corro, e eu remo, remo até no barco tipo esquife e apesar de me achar meio patife me entendo e me perdôo, não perco mais vôo nenhum. Nem solto pum.
Já o menino faz tudo isso e faz pior, ele finge que é eu, e quando fala em primeira pessoa, não percebe que é inútil tentar. Já se está no limbo, é hora de voltar.
O menino pensa nos dragões, adormecidos ou acordados, sofre por antecipação por uns 5 minutos e depois entende que o futuro pode ser melhor, que o presente pode ser melhor, que é hora de voltar pra realidade. Que é hora de voltar pra casa e agarrar a vida com as unhas, lamber-lhes os peitos e descer pelo torso. E de joelhos, assim, dar graças a todos os santos e santas, anjos e demônios.
O menino chupa e cospe o sangue com veneno, as chagas se abrem pouco a pouco, uma a uma, numa explosão de vontades e de medos e de carícias. O nojo substitui o desejo, mas um novo desejo desabrocha, é hora de o menino acordar e dobrar mais uma esquina. Realmente, até que acabe, nunca é o fim.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

De lírios - Parte IV

(continuação da parte III)

Ela sente o frio se esvaindo e o calor vai dando lugar àquela gélida sensação. Porém, ela percebe que não está mais parada. Sente-se em movimento, e o calor vai aumentando. Pouco pode se ver dos arredores, algumas fontes de iluminação esparsas lutando contra a escuridão noturna, como vaga-lumes. Ela sente o calor aumentar e se percebe correndo. Ainda sem entender direito o que se passava, sente medo, um medo primitivo, primata, e ouve como um sino a ribombar em sua cabeça “Corra, corra!”. Ela conhece aquele caminho estranho sinuoso, sente suas pernas fatigadas a levarem para aquele lado, ora para o outro. Ela ouve e percebe que não está sozinha. Ela é a caça. Um, dois lobos a perseguem, rindo como hienas, famintos como leões. Ela decide que logo será alcançada. Procura um refúgio. Fazer-se de morta pode enganar os predadores. Ali, um muro baixo, com o mesmo impulso que trazia da corrida, apóia-se em uma das mãos e joga os pés para o alto. Porém, os pés não encontram o chão conhecido, e ela rola em si mesma, se esfolando toda. Arfando, busca levantar a cabeça, e na penumbra distingue onde se encontra. Trata-se de um jardim. Há alguns metros divisa uma casa, vê as luzes saindo da janela e pensa ouvir gargalhadas, copos. Talvez seja uma festa. Seu corpo vai esfriando enregelado pelo ar da noite, e ela sente dores por todo corpo, provavelmente presentes da queda. Estica a mão e toca em alguns arbustos baixos e ao trazer a mão ao rosto para secar a testa,e se apoiar pra sentar, sente o cheiro de lírios. Nesse instante, ela se sente erguida ao ar. Uma mão invisível, não, mãos invisíveis vão a tateando, a levantam e a afastam daquele momento de alívio. Os predadores a viram escapar, seguiram seus rastros. Ela havia falhado. Ela sente o cheiro de suor forte e masculino, e se vê imobilizada. Enxerga no escuro o brilho maligno dos olhos deles, seus sorrisos e escuta: “Aê, truta, nóis se demo bem!” Sente que não pode mover os braços, pois uma mão de aço as matem presas. Ela geme, se contorce, pensa em gritar, mas nem bem abre a boca e um grito começa a se formar, ela sente outra mão, quente e suja, áspera, contra sua boca. Sente o batom se espalhando por toda a face e o grito preso na garganta. Ela decide arrefecer e percebe que o inimigo já canta vitória certa. Sente mãos por todo seu corpo, perscrutadoras, invasivas. Ela sente e vê sua vontade reduzida a pó e fica a mercê daquelas mãos, daquele cheiro repulsivo, daquele peso contra seu corpo. Seu estomago se contrai e ela quer vomitar. Mas não consegue. Começa a sentir as lágrimas quentes escorrerem, salgando o já inseparável gosto de sangue e batom. Ela se vê invadida, humilhada, e fecha os olhos, para que não seja testemunha daquela atrocidade contra si mesma, e ao lembrar-se do cheiro dos lírios, vai se entregando a um frio, e sente que aquela repulsa vai dando lugar a uma grande paz. Ela já não sente mais medo. Mas ao abrir os olhos, ela não se sente confortável. Outra realidade, outro corpo, que ainda não é o dela. Estica as mãos e sente estar dentro de uma jaula...

(continua...)

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

De lírios - Parte III

(... continuação da parte II)

Sentiu que havia um papel em sua mão direita. Estava amassado. Ela abriu e não sabia como ela conseguia entender todos aqueles tracejados. Via as palavras, mas elas não lhe faziam sentido: “doze anos de ótima atividade em nossa empresa.... desligada por motivos de força maior... compensação devida... referências para novas colocações....” Ao passar os olhos por essas palavras, ela foi sentindo um crescendo de raiva, de nojo, como se mãos se fechassem em sua garganta a impedindo de respirar. Uma ânsia de vômito.
Estou presa. E um desespero passou a invadi-la. Ela quis fugir dali, e a esse pensamento, um corpo que não era seu colocou-se de pé. Ela cambaleou alguns passos, enquanto se apoiava nas paredes frias, mas de um material que ela jamais tocara, aquela textura, não era pedra ou madeira que ela já tivesse visto. Mais um passo.
De novo o frio foi lhe enregelando. Sua respiração ficava mais rápida, seu peito, que não era seu, subia e descia rapidamente. Ela fechou os olhos e de novo se sentiu envolvida pela treva e não ouvia mais som ou sentia qualquer cheiro....

Alguém bate na porta incessantemente. Ela não responde. Mais batidas. Som irritante. Insistente. Contínuo. Mais e mais batidas barulhentas até que ela se rende e pronuncia um som misto de raiva, confusão e estranheza.
O rapaz entreabre a porta, adentra o quarto e deposita um enorme buquê de lírios que espalham seu perfume inconfundível pelo ar. Ela sorri. Automaticamente agradece e não sabe por que motivo não consegue tirar os olhos das flores. Observa, tenta decifrar porque elas lhe são tão agradáveis, tão familiares. Aspira o perfume mais de perto e encontra um pequeno envelope azul. Ela abre o envelope com mãos trêmulas. Um medo repentino toma conta do seu peito e ela desdobra o papel cuidadosamente. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ela lê e relê o pedaço de papel incrédula. Sem forças, ela o deixa cair e olha para as flores como se elas pudessem mudar tudo.Como se aqueles lírios pudessem espalhar sua beleza e perfume em seu ser despedaçado.Como se eles pudessem colar os pedaços do quebra-cabeças e formar algo inteiro novamente.
Por não suportar mais a dor ela deita-se no chão e se encolhe. Recolhe-se, e sente toda miséria, todo sofrimento de sua alma, toda a sua impotência, todo o vazio que a ausência dele deixou. Dói demais e ela implora para que a ferida cicatrize, que tudo passe. Ela tenta saber onde está, quem ou o que sobrou de tudo. Ela não sabe quanto tempo se passou, mas o tempo não importa. Não há fome, nem sede.
Só a dor, o sofrimento, e o frio... Ah, o frio, cada vez pior, mais penetrante, mais presente, mais senhor de si. Ela tenta, mas não lhe é mais possível se mover. Ela já não quer, ou não sente, ou deseja mais nada. Ela apenas aguarda e sofre. E sente o que lhe foi sempre conhecido, familiar, de certo modo só seu, certo, presente, marcante: a solidão, o vazio... O azul, ah, o azul... Ela gostaria de se lembrar do azul, mas não lhe é mais permitido.
Seus pensamentos, estes sim estão livres, voam, sonham, vivem, realizam, erram, riem, persistem, sobrevivem, acreditam, como ela já não pode, como ela jamais poderá. Num tempo em que ela já não pode voltar.
Mais batidas. Mais barulho. E de repente um som que lhe é conhecido e parece aquecer tudo e fazer tudo brilhar... e num último esforço ela abre os ouvidos e os olhos . E ouve e vê. Mas não acredita...

(...continua)

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Passion

Finding the balance
is the hardest
because one starts
burning like the sun
while the other is just heating some marshmallows
in a bonfire

terça-feira, 5 de outubro de 2010

De lírios - parte II

(continuação da parte 1...)

Nada se movimentava, nada acontecia. Por segundos sem fim, o mundo havia parado.
Ela já não sabia o que fazer, para onde ir, para onde olhar. Parece ouvir algo, mas não sabe ao certo se imagina, ou se realmente ouve. Parecem passos. Sem pressa, determinados...

Num gesto automático, ela se vira e fixa o olhar sem vida num ponto distante.O ponto se aproxima e vira sombra. Ela apenas observa. A sombra se transforma em vulto e ela sente frio. Junto ao vulto a neblina se torna densa, pesada, compacta... Quase sólida.

O vulto se aproxima. Ela treme. Estremece. E percebe que ironicamente a sensação de calafrio, de pavor, é melhor do que nada. Por instantes, a dor se vai. Dissipa-se.
Ela aperta os olhos, tenta enxergar em meio à neblina o vulto que se aproxima...

Mais e mais perto. Mais e mais frio. Tremores. Temores. E agora ela pode sentir o ar congelando à sua volta. O vulto movimenta-se ao redor dela como quem estuda o inimigo, reconhece o terreno de batalha. Ele dá voltas e mais voltas incessantes. Ela se sente tonta e num esforço superior às próprias forças, fixa o olhar no vulto. Não percebe formas, apenas um par de olhos azuis que faíscam em meio à bruma. Ela segue os olhos, agora curiosa, mas está cada vez mais frio, mais gélido, mais silencioso. Ela se sente fraca. Tenta continuar de pé, tenta fazer com que as palavras saiam, mas é impossível. Ela mergulha no azul. Azul profundo. Azul cruel.

Ela mergulha mais e mais no azul sem fim, e se esquece de tudo. O azul a envolve, a domina, e ela já não sente mais frio. Não vê mais nada.

“Dna. Selma? A senhora está bem? ” ela ouviu sons que pareciam vir em sua direção. Sua visão turva foi se clareando e ela pode divisar um rapaz, provavelmente nos seus dezessete anos, vestido de forma exótica, quase sem cabelos, se dirigindo a ela numa língua estranha. Tudo ao seu redor não fazia sentido. Onde era aquele lugar? Percebeu-se sentada e a sua frente podia ver uma caixa que projetava uma forte luz, como um espelho que, em vez de mostrá-la, exibia o retrato de um lírio branco. Nas mesas, muitos papiros, brancos como ela jamais havia visto. Sons vinham de todos os lados. Metálicos, como se ela estivesse em uma ferraria. A claridade do sol em uma janela distante contrastava com a claridade branca que a envolvia.

Será que ele havia sido capaz de fazer isso com ela? Ela se ouviu dizendo palavras que não conhecia, mas, que ao mesmo tempo, eram tão parte dela: “Estou bem, Alexandre. Vamos, volte ao trabalho.” Nada. Não podia sequer lembrar o lugar onde ela havia crescido e de onde jamais poderia ter saído. A maldição, ela se lembrou. Será que ele...? Não. Enquanto pensava essas coisas, sentia com as mãos o próprio corpo. Olhava para as pontas dos cabelos, que haviam perdido sua negritude quase azulada e adquirido uma tonalidade de amarelo-girassol.

(continua...)

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

De lírios - Parte I

Com tenho estado meio "desinspirado", resolvi trazer à luz algo que foi feito e há muito está guardado. Trata-se de um longo conto escrito a quatro mãos com minha querida amiga S 4 Sunshine. O modo de fazer era simples, cada um escrevia um parágrafo e mandava para o outro, esse parágrafo era o mote de onde se deveria partir. Ele está todo pronto, mas preferi colocá-lo aqui aos poucos, pois dizem que o que é bom, deve ser vagarosamente saboreado. O título fui eu quem dei, a partir de elementos do próprio conto.

***

Ela se levantou sem pressa, sem querer, olhou à sua volta e se viu em meio há uma densa neblina. Esfregou os olhos como quem acredita estar acordando de um pesadelo, sentiu uma leve brisa gelada passar por seu rosto de marfim e estremeceu...
Incrédula, olhou à sua volta novamente, e se deu conta de que não era sonho, pesadelo, ou quem dera uma ilusão...
Sim, ele se fora, como havia dito um dia que iria. Sem prenúncios, sem despedidas, sem lágrimas. Era tempo de ser. Ela, ao perceber o inevitável, caiu de joelhos e contemplou o infinito vazio e gélido.
Ela abriu seu peito e gritou o mais alto possível, para que não morresse de dor. Mas nenhum som se ouviu. Caminhou lentamente até um campo de lírios e ali o observou longe, alto, decidido. Ela sabia; sempre soube. Desde o dia em que ele viera. Desde o minuto em que ele chegara.
O futuro seria como tinha sido escrito. Nada mais... nada menos.Nada importava agora.
Ele se fora. Era só. Um último olhar sem esperança, mais por hábito do que por razão, e ela vê ao longe, uma silhueta que lhe era conhecida. E é só. Nada há por vir. Nada que faça sentido. Se pudesse, ela derramaria lágrimas, sentiria desespero. Mas ela já não pode.
Então, ela apenas contempla o bater de asas, cada vez mais distante... cada vez mais silencioso. Cada vez mais cruel. Cada vez mais sombrio.....
E ele se afasta, primeiro em pensamento, depois a cada farfalhar de asas, ganha altura,
ganha confiança. Ela sabia. Ela sempre soube. Coragem, não olhe pra trás. Ele sente o
calor do sol chicoteando sua face, folhas ao vento buscando impedi-lo de continuar. Ele
passa a mão na testa para afastar a franja que lhe cai e sente o choro quente escorrendo
pelas bochechas. Mas por que ele chora? Era o que estava escrito. Há um silêncio, que se
transforma num grito. Num ímpeto ele decide olhar pra trás, mas esse ímpeto é varrido
pelo vento que já se faz cada vez mais veloz a cada bater de asas.
Ela vê que ele vira apenas um ponto distante, uma nova estrela, a primeira a despontar no
céu de ocaso. Ela continua lutando para que as lágrimas encontrem saída de seu peito, mas
ela não consegue, o aperto aumenta, a pressão, mas por mais que se esforce, seus olhos
continuam secos e vão perdendo a cor. Ela já se sentiu assim antes. Morta. Nem o doce
cheiro da grama, nem o céu vermelho do por do sol consegue arrancar dela algum sorriso.
Ou qualquer outra sensação. Seus lábios se movem, como se pedras tivessem sido atiradas
no espelho d'água que era seu semblante. Morta. Morta, ela repete silenciosamente.
Ouve um barulho, vindo de trás de si. Ali onde havia a árvore da sombra fresca. Ela prevê
que algo extraordinário está para acontecer. Ela se vira lentamente, experimentando mover
um músculo de cada vez...

(continua)

domingo, 15 de agosto de 2010

Não preciso mais voltar, lá não é o meu lugar

"Você vai ficar sozinho, velho e fedendo e com um avental engordurado, numa barraquinha de festa de igreja" as palavras ficaram ecoando ali enquanto os passos dele se afastavam e o medo do peso que elas iam ganhando ao se afundarem nos meandros da mente tomava conta. Em outros carnavais até que seria só uma piadinha de mal gosto e uma risadinha amarela e entra-por-um-ouvido-sai-pelo-outro. Mas é esse carnaval mesmo, e o eco grita e ouço uma risadinha de algum espírito malicioso e do meu superego. Daí, nada melhor do que combater com a melhor arma que se pode ter nesses casos afinal "do you need anybody? I want somebody to love. Could it be anybody? I want somebody to love." E a luta começa e escuta-se o plim do gongo tocando e o silêncio que antecede a contenda. Busca-se ir mais longe, num lugar onde nunca se foi, mas que se parece com todos os lugares onde já se havia ido mas faz tanto tempo que as impressões estão distantes e dessa vez vai ser diferente dizia uma nova vozinha dentro da cabeça. Frio e mais frio, mas a vontade é quente, ainda que não se saiba onde colocar as mãos elas acabam ficando nos bolsos pelo frio e pela incoveniência de estarem ali, sem uso inúteis. E a música alta vai embalando nas suas batidas ritmadas e vai fazendo mil corpos balançarem como se fossem apenas um. Olhos famintos vão de cá para lá em uma dança só sua e procuram alguma coisa que pode estar ali, mas nunca se revela. Um mar de sentimentos chega como tsunami, arrasando as defesas e barragens construidas pelos castores da alma como se fossem palitos de fósforos mal ajambrados. E a lúxiria ao redor vai aumentando e os corpos suam e a vontade aumenta o desejo que se tentava esconder numa casca de amendoim fica maior que aranha-céus e vai tomando conta do vazio que seria ocupado pelo outro. De repente um sinal do destino corporificado numa voz do passado que aparece careca e sorridente para informar que a vida é curta e há algo de errado ali. A felicidade que um rosto conhecido me traz numa multidãos de estranhos que se estranham e se comportando de forma estranha me tornam mais estranhado deles. A música aumenta a ponto de eu não poder ouvir meus pensamentos, mas a surpresa acontece. Como se uma luz de um holofote esivese apontada para mim ou uma descarga elétrica passasse por meu corpo, um raio mesmo, tudo se ilumina.

Me percebo.

E a resposta muda pois a pergunta se mudou e a segurança volta a acalmar as águas tempestuosas dentro de mim. Looking for beauty passa a ter um novo valor e me desvisto de todas as culpas, de toda a raiva, de toda a necessidade porque o que eu procuro não é o que eu penso que é. Eu sorrio um sorriso que nada tem daquele artifical e convidativo de antes e celebro minha liberdade do cárcere de ser uma imagem mais que um espírito de ser um robô mais que uma bailarina de ser maior me projenado num outro se eu posso me multiplicar em mil em mim mesmo. E eu nao preciso mais ser engraçado nem legal nem rico nem nada e posso seguir sendo apenas eu. Como galadriel sinto a tentação de "all shall love me and despair" mas prefiro diminuir, voltar ao oeste e continuar galadriel como ela fez. A felicidade me invade e eu celebro hoje o dia dos solteiros com muito orgulho e percebo que a busca deve continuar, meu caro Carlos, não se está velho demais pra essas coisas não. O que acontece é que com o passar do tempo nota-se que vida é curta e que se você deseja algo nada deve fazer você mudar de ideia, nem fila, nem a espera que pode ser longa. Posso não ter encontrado a intesidade nessa noite mas foi nela que encontrei a paz.

domingo, 25 de julho de 2010

Vida centrífuga

O menino abre com carinho e medo o álbum de retratos
Ele vê rostos e sorrisos que um dia ele teve.
Alguns, que surpresa, são quase desconhecidos, semi-apagados.
Memória vã, sofre toda uma higiene.
Os rostos vão passando e ele reconhece presidentes, generais e reis.
Até mesmo uma odalisca.
Ele busca entender como seu mundo se expandia, como cabia em seu coração
Tanta gente.
E cabia.
Mas uma escolha, uma curva que se vira. E quando olha pra trás.
Ninguém o acompanha. Ele se recolhe e tropeça. Mas há novas mãos ali
Pra amparar a sua queda.
Ele fecha os olhos e agradece.
Mas esse ir e vir o incomoda. Ele tenta descobrir uma alternativa.
Ele decide lutar.
Luta com armas tecnológicas, abre uma janela e diz alô.
Luta com as ondas analógicas e digitais.
E diz, quero te ver.
Luta contra o tempo que o devora e se disfarça de “Não tenho tempo”.
Ele percebe que algumas pessoas nunca voltarão. Mesmo.
Mortas em vida, foram sumindo no horizonte, e o vento nunca lhes soprou
Para a praia.
E no tácito dizer adeus cotidiano,
Vão-se os anéis, ficam os dedos.
Sentimentos se espalham pelo chão, grãos de areia,
escoam pelo ralo.
Um telefonema se cala. Um eterno status ausente.
Não tenho seu MSN, até nunca mais.
Alguns vão, e não deixam saudade.
Fica parecendo até, um certo alívio?
Outros voltam, direto das catacumbas.
E lutam para permanecer, mesmo na
Hegeliana aventura
Na grande ontologia
Do mover-se.
E os movimentos centrífugos
Empurram para fora das nossas vidas
Como água da máquina de lavar
Doces sorrisos, palavras encantadoras.
E ela te interpela:
Vai aceitar e submeter-se ou tentar reforçar os laços que eu enfaqueço
Com minhas cidades e labirintos e movimentos
Sem eternos retornos, sem nenhum retorno?
(Talvez eu seja o último romântico.)
Mas o menino vê sombras ao seu redor, que lhe estendem a mão
Ao tocá-las, elas se materializam em conselhos e conversas e alegria compartilhada.
Ele vê que algumas pessoas naquelas fotos, continuam vibrantes, claras e definidas
Em seus contornos.
Estão ali.
E o menino decide virar clichê.
Se inspira e respira, grita a toda voz,
Lutar vale a pena, se a alma que fica não é pequena!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Durante toda essa semana
Aqui a pensar sobre o que foi dito
Naquele dia em que conversamos
Indo fundo nos meus pensamentos
Lembrei de uma música e não pude deixar de
Ouvi-la e achar que ela tinha tudo a ver.

http://www.youtube.com/watch?v=JzoPBrZNVnw

sábado, 15 de maio de 2010

Dragonfly

* this text was written about seven years ago. It was an assignment to university as we should write a short story. At the time, the professor thought I had plagiarized some text, and i cannot deny I had tried to put together a lot of things i liked about science fiction. I hadn't heard then of intertextuality. It was slightly changed now and I am posting it here. My style has changed and so has my vision of people. It would never come out like this nowadays.

– All the systems running stably – said the feminine electronic voice.
– Great, Orb. – the mid-twenties, black-haired scientist answered. Captain William Faces, the only crew member of the starship Dragonfly, in its first mission to the recently discovered stellar system of Alpha Centauri.
– My ship, my trip, my mission, my glory… – thought William while he was pushing some of the buttons on the large console. His only companion was his highly developed computer, Orb. “But this was not what they wanted. All those envious scientists who wanted to be here, to spoil my project, to dazzle my greatness, to disturb my peace…”
The captain was very criticized on Earth. He was a brilliant scientist who had developed a new ship moved by photonic impulse, but the ship would carry only one human passenger. The press named the ship Dragonfly, since the solar and communication antennas were shaped like wings of a dragonfly and the permanent decks of the rocket resembled its body.
– Message from Earth on channel 5.
– Put it through, Orb.
– Captain Faces, here is Tokyo Station. We have lost visual contact. Your ship is now beyond the outer limits of observation, our most powerful telescopes cannot display images of your ship anymore. We request radio reports every 2 cycles, over?
– That sounds great. Orb, how long has this transmission taken to reach us here?
– Twelve Earth days or 24 cycles.
– Record message: all systems are operational and the estimated time to reach Middle Point is 9 cycles. There were two radiation waves but the shields did well. Over and out. Orb, send it.
Good. Twelve days to get Earth and twelve more to get their answer, which means I will have about 25 days of peace. A two-year mission. Madness, they would say. Alone, in the cold and dark space for two long years. Bullshit. Those renowned psychologists trying to convince me I should take another person with me. But why? I need no one. I have all the books humankind has ever produced to amuse me, I have the music, TV records of the last two centuries… They said an accident could kill me and all those billions invested in the mission would be only a floating piece trash… Silly thoughts. If I can’t make it, nobody will. I know every screw of this ship, I designed and built it, who else could fly it?” – his thoughts were interrupted by the computer’s voice.
– It’s time for your exercises.
– All right. Report to me on any fluctuations. Switch manual to automatic navigation.
Should I miss anything from back home? I never really belonged there. Since I was a child my dream was to live among the stars. Maybe I find one planet or two, and one of them will be named after me. Planet Faces. It sounds so good. It is the least they can do. Too bad I won’t be able to land, but the probes will take enough pictures and collect data to the next expeditions.”
– Captain, energetic fluctuations 700.000 km ahead.
– What is it, Orb? Another radiation cloud?
– Impossible to identify. Scanners on maximum, but no response. Electromagnetic interference.
– How far are we from the Middle Point?
– The Middle Point of the way to Alpha Centauri is 700.000 km or 0.2 cycle.
– Can we get around it?
– No, it is moving toward the ship. The mass has ejected a small piece of it and this part is in collision route.
– Is it a weapon?
– Impossible to identify. Three minutes to impact.
– Full stop. Evasive maneuver.
– Impossible to set a route to avoid collision. Collision in two minutes.
I didn’t think this damn machine would piss me off, but it’s wearing me out!
– One minute to impact… Fifty seconds…
– Orb, switch off countdown.
Suddenly, the whole ship started to shake. The bridge was invaded by a dazzling light. Captain William began to pray to every god he knew and for the first time he cringed and thought that the trip was a mistake. He would be murdered by something he didn’t even have a clue about what it was.
Gradually, the light started to fade until he could open his eyes. He blinked once and twice and was astounded. Standing before him, face to face, there was something, someone he had no word to describe. A transparent being, with a big head, with rays of energy going through it, two large black ‘eyes’, but no mouth. Its body was covered by a gown, made by a material half solid, half liquid very similar to mercury.
– Who are you? My name is Captain William Faces, scientist of the Earth Empire in a mission to explore new planets to…
His voice reeled. He could not produce any sound. A heat wave took his body and there was pain on his forehead, burning and throbbing. The light was on again. He thought a star had just invaded his ship. He felt he was surrounded by a reddish brown curtain. It was so silent, so peaceful. The only distant and constant noise seemed a fast heart beating. He could stay there forever, but some force pulled him out, into a chilling place, a blinding light.
As soon as he could open the eyes again, he had another surprise. There was a man standing before him. He knew that man. It was his father. Then he remembered his childhood, the walks to the small pond there was near his house, the times he would sit on his father lap while he wisely named the stars and showed them through a telescope. He remembered the calls from his sister trying to persuade him to take a license from the university to visit his old man who was not in his best days, but what could he do in such a situation? He was not a physician, he could do nothing against that illness. He might pray, if only he were a faithful one, though some years in college had easily led him to a path of skepticism.
– Papa, what are doing here? “What am I doing? He cannot be my father. My father is dead some light-years away.” He kept on – I demand an explanation. What the hell…
Another flash of light which was all over the cabin. Another heat wave. He felt his muscles were tense as if he had been running 10 km without a break. His stomach was spinning, he felt his guts would come outside very soon to say hello.
He didn’t want to open his eyes again, to see that ghost, that hellish vision which was trying to haunt him and disturb his mission. But slowly he moved one eyelid and then the other. There was a girl with him.
– Hope, is that you? “No, you dork, your best student and assistant in the project, with whom you had one affair though both knew it could not last, is on Earth.”
¬– Why are you doing that to me? Who are you?
To his surprise, the girl didn’t move any facial muscle, but he could hear her voice echoing inside his mind, no doubt it was Hope’s voice as icy as it could sound:
– Why did you leave me Will? We had so beautiful a life to live. Together. Why couldn’t you take me with you? I am a scientist as well, I could be of use.
– No, I had to do it by myself. I yearn for the glory, the greatness of my species…
– Of your species?! – the girl blinked, her forehead wrinkled.
– Of MY greatness. There will be dozens of statues of me all over Earth. The amazing explorer who discovered distant planets, who contacted a higher intelligence…
– You are right, human. We are a higher intelligence. Thus, it is our desire to wait until your moral values are better developed, when a universal perception is part of you.
The girl’s hair, as black as the universe, began to slightly move upwards as if a soft breeze was blowing from below her. Each hair was just squirming like Medusa’s snake-hairs, which gave her a demonic look. And some hairs just flew from her scalp, keeping on moving around her head so fast that one could think they were little beams of light. But they started to slow down until he could distinguish what they were. They were dragonflies.
– Do you remember, Captain, when you were a child that you used to pull out dragonflies’ wings because you wanted to understand how they flew? Do you remember what you used to tell them?
– Yeah. That if I would not fly, they shouldn’t have this right either.
– Do you know the legend of… Icarus, as your people know him? – and she lifted her finger so that those dragonflies could land there. – Would you like to clip their wings now?
– What are you talking about? What is your point? I was just a child. – William was almost shouting. He was getting angry.
– Tell me, Billy – and that kind of intimate way of addressing to him was making him angrier – isn’t that child hidden inside yourself, waiting to come out to play? What are you going to do when you get back home with such valuable information? What will you ask for in return? A planet for yourself to be the king? What if it is inhabited? Will that civilization, considering it is less developed than yours, be enslaved by you? Will you humans take out all the natural resources, to try to make up for your spoiled Earth?
He could not understand how that creature knew that much about him, or his species. Were they angels, or rangers, the universe police? He was trying to be rational, he was reaching the edge of the craziness. He took for granted he had the right to be there, he had spent his life, his existence toward that point. He should try to gather some arguments to deny those facts, if only could he find one!
– You are really a demon. And tuning to the computer: – Orb, I want a complete scan…
But his voice vanished. The damn light started to fill up the room and his forehead was about to explode. He could hear nothing but an ever-lasting buzz like those ones we seemingly hear when our body is exposed to different pressures.
– Hope is gone – he heard himself saying that before he could hear no more.

“Am I on a hangover? My head is killing me.” Again Captain William Faces opened his eyes and stood up from the floor of the cabin. Everything seemed normal, no one was there but him. “So, I must have fallen asleep… It was just a nightmare.”
– Orb, where are we?
– We are getting away from Middle Point. The estimate time to reach Earth is 6 months or 360 cycles.
– What? We should be heading for the opposite side. Change course to Alpha Centauri.
– Impossible to change course. Fuel level is under the patterns of mission.
– What the hell are you talking about? I planned to have round-trip fuel. Orb, what is the current capacity of the tanks?
– There is fuel to fly for six months or 360 cycles.
“Oh no! I have been tricked! That thing stole my fuel and changed my ship’s route. Now going to Alpha means there is no way to go back and get famous. No, I am sure they will consider I was a failure and I will be reason for jokes and mockery. But wait, I may not have discovered the planets, but I have been the first human to get in contact with aliens. A scapegoat. I will be a hero anyway.”
– Orb, show me some the records of the internal camera.
– Specify the deck or camera number.
– Camera 5 of the bridge.
– How much should I rewind?
– Let’s try 10 minutes…
And on the screen Captain William saw… nothing. Only statics.
– Orb, rewind three minutes. – his voice was anxious, he was predicting bad news.
Nothing happened again. There was only him pedaling his exercise bike.
– Orb, isolate the part of tape with statics… when was it the last image?
– There are seventeen seconds of statics.
“God, seventeen seconds?” – Orb, purify images.
– Impossible to retrieve data.
– What is the interference cause?
– An electromagnetic spacial phenomenon, probably the cause of your losing consciousness. The computer of the ship as well as every life-support systems was turned off.
“Well, I have two options…Either I get back to Earth and be a zillion-dollar failure or I can go to Alpha Centauri, even though I know I won’t ever get back. One of the planets I may discover will be my grave… I have oxygen for some months but I might find a breathable atmosphere and live on…I am powerless, a wingless dragonfly…”
– Orb, change the course to Alpha Centauri in maximum speed.
– The fuel level…
– Ignore it. Record message to earth: Due to an unknown phenomenon, my fuel has been reduced to half. It was an outer phenomenon as the systems of the ship are working well. Thank you for everyone who trusted me. I will be the first seed in the new planet. Over and out. Send!

sábado, 1 de maio de 2010

Cap. 5 -Interlúdi* Fil*s*fic*

As luzes da cidade não chamam mais meu nome.
Ando pra casa num sábado à noite,
E os sambas dos botecos não falam das minhas dores
Nem as cervejas dos bares cult secam minha sede.
O estrobo pisca mas não me faz pestanejar.
O barulho ensurdecedor das últimas baladas
Não me fazem ouvir o zumbido no silêncio do meu quarto.
O riso da plateia desconfortada ecoa.
As maldades que escondem medo e a inabilidade de sair da posição
do algoz.
Não, não sou agente duplo. Acho que nem sou a gente.


O menino se contorce no quarto escuro.
Ele deveria ter comprado a lâmpada que substituiria
providencialmente aquela que queimou.
a ideia foi forte demais.
Mas o menino está negligente. Não escreve aos amigos, não visita a família.
Ele só sabe que o amanhã é prosa, e que o riberão secou. O tra-lá-lá-lá la ô.


As filosofias escorrem como mijo na calçada,
Passam como luzes dos faróis dos carros.
Passa a dialética, passa a imagética, passa o hedonismo.
Talvez esta seja a hora e a vez.
Mas vou fingir que não é.
Se for, desculpe, não vou te contar.

O menino se pergunta onde foram parar os princípios.
A loucura toma conta das suas páginas.
Uma loucura de achar um lugar melhor.
Ele sabe que é hora de arregaçar as mangas,
arregaçar a filosofia.
O menino dança nas brasas do relógio e o ponteiro dos minutos
Parece que vai decapitá-lo.
Mas ele é brasa-mora, é cool, é style.


Receita da salvação:
meia lata de atum, azeite, 1 banana, farofa pronta, alho picado, sal, pimenta do reino e orágano a gosto, 1/4 de pacote de queijo ralado. Alcaparras para enfeitar.

O menino joga o atum na panela e frita no azeite.
Põe a banana e quando está desmanchando, coloca a farofa pra dar uma liga. Mexe e remexe, bota os temperos, deixa o alho pro final e por fim, ele coloca o queijo ralado.
O menino quase chora ao sentir o cheiro do queijo queimando e grudando no fundo da panela. Desliga o fogo e coloca uma meia dúzia de alcaparras.
Ele olha a sua obra e sente que vai comer a sua vida nonsense.
Que aquilo vai ter o gosto da morte, ou melhor, o desgosto da vida.
Mas ao seu paladar faminto, a iguaria não deixa a desejar.

O absurdo se dissolve em refeição. A fome continua, mas a sabedoria vem.
A despeito.
O passado ressurge, regurgitando pedaços mal digeridos.
Eis a indigestão.
Eis de novo a dialética. (E viva ao rei da Bélgica!)

O menino se despede de seus amigos. è a última vez que eles o verão.
Ele sabe, não a última vez de fato, mas a última vez assim.
Na próxima, eles verão outro. A negação que vai se negar e vai virar si mesmo ao se negar de novo, no futuro do futuro.
A baiana roda o menino.
Mas ele não entende esse hiperbato.
O menino se cansa de falar difícil.
Não, nao. Ele se cansa de falar e ponto.

Mas a vida é dois pontos.

PS - o menino sabe que não se deve colocar PS num poema.
carta é missiva, poesia é remissiva.
Ele sabe que não é porra de poeta nenhum. Mas ele quer mais é que as críticas se fodam.
E a poesia também.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Direção

Esse poema foi fruto de um jogo estético a quatro mãos. Fomos brincando com as estrofes, rimas, mudando o que o outro fez. Eis o resultado. Valeu Rodrigo?

Corro a toda velocidade naquela direção. Chove.
E a chuva escorre na minha face como lágrimas de fora pra dentro.
Pra que a pressa? Não há para onde fugir.
A noite parece chegar igual pra todo mundo.

A cada passo meu que ressoa na escuridão,
Me sinto mais forte.
E como força fosse luz, claridade.
Preto e branco se fundindo, dando vida a uma nova verdade.

Cínico? Me jogo na vida e crio um novo amanhã.
Passo por trilhas, montanhas, desertos e acabo aqui, nesta cidade.

Já não há bem ou mal, já não me restam escolhas e, aos poucos, sinto a força
Se esvaindo. Desvairada.
Pego o metrô, que já não dá mais pra andar.
A próxima é a Clinicas, eu vou me encontrar. Ou você?

Aqui é Paris ou aqui é Madrid? Aqui e acolá. Pro lado de lá?
A pé, sobre trilhos... importar, nunca importou.
Mas sigo. Você não seguiria?
Face fora, foge força. Em frente e enfrente!

Não há mesmo para onde correr.
Naquela direção só restaram as marcas da chuva que um dia passou.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Uma rapidinha/ a fast one

Eu queria tanto que ela estivesse ali.
Servi as taças, com o primeiro espumante que encontrei. As bolinhas se faziam ali nas taças e dentro de mim. Borbulhava de ansiedade. Era amor?
Dei-lhe a taça. Olhei no fundo dos seus olhos e levantei a taça.
Ela fez o mesmo. Mais pro universo do que pra nós dois, (lembro que trocamos um olhar cúmplice) brindei:
"À Baco?"
Ela fez um muxoxo e assinalou, meio a contragosto, "Eu não fumo. Obrigado!"
***
(English version)
She wanted so badly that I was there.
I filled the glasses with the first chardonnay I found. The bubbles were all over the glasses and all over me. I was sparkling with anxiety. Was it love?
I handed her the glass. I kept staring at her and raised the glass.
She did the same. More to the universe than to any of us (we exchanged a wicked and matey look)and I toasted:
"To Bacchus?"
She frowned and said, a bit annoyed, "I don't smoke, thanks"

segunda-feira, 29 de março de 2010

Se vou

Às vezes, tentei desenvolver uma nova forma de escrita. A escrita a 4 mãos. Foram diversas tentativas de um exercício interessante. Veja lá: eu escrevo um trecho, mando ele pra outra pessoa, que vai lê-lo inspirar-se e continuar o jogo. O texto vai crescendo e indo pra lugares inimaginados, você tem que desvendar problemas colocados, criar novos, ir e vir, experimentar coisas que jamais escreveria. Muito divertido, não é? Mas houve um agravante. Não consegui até hoje terminar nenhum dos 4 textos começados. Bom, um foi terminado, mas ainda não passou pela estruturação final. Creio que logo ele estará aqui. Ele será talvez a única experiência bem sucedida. Mas os outros textos tinham seu valor, e eu não sou homem de ficar começando e largando na metade. Decidi que se o outro partido renega a escrita, como diz o ditado, "quando queres algo bem feito (ou pelo menos feito), faça você mesmo".

O texto que segue é fruto do que surgiu quando fui escrever com o Rodrigo. O que foi dele, salvo algumas pequenas mudanças, está em itálico. O resto é meu. Espero que ele goste do final (risos).


***

Eu abro os olhos, mas a escuridão persiste. Tento me localizar. Não vejo nada. Sinto frio. Estou no chão. Sento-me sem conseguir enxergar as minhas mãos que coloco a poucos centímetros do meu rosto. Toco meu rosto. Sinto uma aderência estranha Sangue. Meu? Meu nariz dói. Mas não me lembro de ter batido meu nariz. Não me lembro de nada. Escuto ao longe um som de metal chocando-se contra metal. Parece que alguém está martelando algo. Um som repetitivo, ritmado. Ping... ping... ping...

Vou tentando sentir as outras partes do meu corpo, e as sensações vão me invadindo, como se abrir os olhos tivesse sido empurrar a primeira peça de uma fileira de dominós em pé. Um derrubando o outro, uma sensação sobrepondo-se a outra, sobrepondo-se e complementando. Frio. Estico o braço e tento tatear numa cegueira desesperadora, a saída dessa escuridão desconhecida. Flashes atravessam minha mente. Começo a me lembrar. Mas me lembro do sonho. Um céu azul, de um azul que eu nunca havia visto antes. Um dia modorrento, abafado. Nenhum som, exceto o de meus passos nessa estrada. Mas que estrada é essa? Vejo uma menina. “Olá!” diz ela numa voz que destoa de sua aparência pueril e delicada. Parece uma velha falando. “Eu sou Alice e bem-vindo ao país da maravilhas!” E uma risada que parecia carregar toda a malícia do mundo. A risada do diabo em pessoa, naquela pequena loira ali parada na minha frente naquela estrada. E a escuridão.

Luz? Alguém disse luz? Não, ninguém disse, fui eu quem a acendi. Aproveito e olho no espelho, mas já não me enxergo mais. O tempo parece ter levado de mim o que nunca descobri realmente ter. Quando ando pelas ruas sorrio, tentando despertar nas pessoas alguma curiosidade. Ninguém vê. Corro para ficar suado, e ainda assim ninguém se pergunta por que nesse dia de frio a água corre em bicas pelo meu corpo. O que foi que aconteceu comigo? Simulo chorar. Tentei comover, mas nem a senhorinha com o guarda-chuva parece se importar. Quando foi a última vez que vi minha sombra refletida no chão? Quando foi a última vez de que gostei da imagem envergonhada no espelho? Não me lembro. Não agora. Alguém, por favor, apague essa maldita luz.

Mas meu braço não responde. Sinto as veias das minhas têmporas latejarem e um fio de suor escorrendo pela nuca, serpenteando espinha abaixo. Sinto um gosto amargo na boca e fico tentando lembrar a última coisa que comi. Sinto minha bexiga doendo e mijo displicentemente respingando no chão. O mijo quente não pára. Quantas cervejas tomei ontem? A imagem da loira dos meus sonhos, era ela que segurava um guarda-chuva? Tenho que lembrar nunca mais tomar ácido de novo. “É melhor que bala, mano” ele disse. Mas aqui estou eu, com esse gosto de podre na boca, minha cabeça quase explodindo, essa luz me cegando e minha imagem distorcida no espelho. Minha mãe já dizia que meu reflexo refletia em tudo o que eu fazia, e tudo o que eu fazia refletia em mim. Que bom que já não tenho que ouvir mais esses absurdos existencialistas da velha cotidianamente, e sim, a segura uma vez por mês que lhe agracio com minha presença pelo telefone. O que vale mais? Sofrer um pouquinho a cada dia, ou muito em ocasiões particulares? Apago a luz e penso como cheguei em casa. Com os olhos fechados, de forma a suavizar a dor, vou sentindo o caminho de volta a minha cama, mas ao estender a mão para afastar os lençóis, percebo que há algo ali.

Fecho os olhos apesar da escuridão. Uma cena se forma na minha mente. Não faz muito tempo. Naquela época meu pai ainda costumava chegar tarde do trabalho. Costumava ser por volta das 11 da noite quando eu e meus irmãos ouvíamos a campainha. Embora ele não fosse visita, e nunca era, pois a casa era dele mesmo, meu bom pai sempre fazia questão de tocá-la. Ele tocava a campainha e nós corríamos para a cozinha para ver o montão de delícias que ele nos trouxera. Mas nesse dia foi diferente. Diferente não só porque havia chovido durante todo o dia, mas diferente porque seus olhos pareciam ter gritado durante as últimas horas, num desespero latejante e comovente. Ele nos olhou e sorriu com o canto da boca. Havia mesmo algo errado naquele sorriso. Voltamos para a sala e nos amontoamos entre as dezenas de cartas com números e caras engraçadas. Depois de alguns minutos, escutei o que havia acontecido. Ele havia tirado uma remessa errada de um pedido lá da fábrica de parafusos em que trabalhava. O transtorno tinha gerado uma dívida imensa para a companhia que não via outra razão senão demiti-lo. Seja lá o que isso significasse, estávamos desempregados. Naquela época, papai já andava meio estranho com a morte do nosso avô. Ele não reagia bem desde aquela tarde de outono no hospital, quando recebemos a notícia de que vovô não reagira ao tratamento e havia falecido. Agora, pensando melhor, havia um par de meses que meu pai não nos trazia os mimos açucarados de sempre. Ele realmente não andava bem. Logo depois que saí do banho, percebi que papai deixara um embrulho em cima do armário. Lembro até hoje daquela cena. Fiquei curioso. Depois que todos haviam dormido, fui à cozinha. Desembrulhava calmamente aquelas folhas amassadas de jornal, que traziam uma cobertura especial da vinda de Marley O’Neill ao Brasil, quando quase caí da cadeira. O que aquilo significava? Por que meu pai o havia enrolado daquela forma? Fui direto para cama, soluçando de espanto. Longos anos se passaram. Dez ou doze anos depois, mesmo depois da morte do meu pai, o embrulho continuava ali. Foi aí que um dia decidi dar vida a ele. O estranho é que eu não me lembrava de tê-lo deixado sob o lençol. Alguém havia estado ali.

Deitei-me, convulsionado por essa mescla de pensamentos, memórias da minha infância, meus pais, bem eu que estive fugindo da minha família nos últimos cinco anos e tinha que lutar com todas as minhas forças pra aguentar e sair ileso de eventos como natais e aniversários (já que para os velórios eu sempre tinha uma boa desculpa). Seria por meu relógio de cabeceira piscar cinco minutos passados das onze? Seria o barulho de chuva que ainda caia do lado de fora da janela? Seria um repentino medo da presença que espreitava nas sombras, mas que eu não podia ver, ou sacar se era amigo ou inimigo? Por um momento senti que o ar parecia eletrizado e tudo se movia mais devagar. Estaria eu ficando louco? Encostei as costas da mão no embrulho e mesmo estando ele envolto em folhas amassadas de papel, podia sentir o frio metálico e sua dureza. Fechei a mão abraçando aquele objeto, sentido seu formato, seu tamanho. Senti o coração acelerar, e ao mesmo tempo, não pude evitar que uma gargalhada explodisse no silêncio do meu quarto. Respirei fundo, assustado pela minha própria gargalhada, e uma espécie de onda de fúria e vergonha me invadiu o íntimo. Quase que incontrolavelmente senti meu pau ficando duro, mas era uma reação tão díspar, alheia ao momento, errada. Que tipo de magia negra havia naquele objeto tão odiado, naquele falo fundido que podia me excitar? Uma nova onda de culpa e remorso. Imagens começavam e se formar na penumbra, assim que a luz do luar invadiu de repente a minha janela. Já parara de chover. Abri os olhos e ele estava ali.

Lembrava dele mais baixo, menos careca. Era como se o Mestre dos magos tivesse feito uma plástica e estivesse com a cara do meu pai. Tremi, de uma forma incontrolável. Abracei a arma, enrolando melhor o papel, não queria que ele soubesse o que estava ali comigo, apesar da quase certeza de que ele era uma miragem, uma projeção psicológica que tentaria me impedir de fazer o que eu precisava fazer. Quem iria quebrar o silêncio primeiro? O silêncio de décadas? Ele me olhava profundamente. Nada transparecia. Raiva, pena, compaixão, nada! Na luz do luar, éramos só nós dois enquanto o resto do mundo parecia dormir. Parecia dia. Achei que ele fosse gargalhar como a menina do meu sonho. Ou era realidade? Ainda sentia no ar um perfume que não era o meu e não emanava daquela aparição. Era um perfume de mulher. Lembrei-me da senhora da sombrinha. Por que ela parecia tão triste? Por que eu não me dispus a ajudá-la? Por que ela voltava a povoar a minha mente num momento tão delicado como esse, no qual minha vida estava por um fio?

Fechei os olhos e fiz algo que não fazia há anos. Orei. Fiz uma oração sincera, como se minha vida dependesse dela. Tentei entrar em contato com o divino, com o universo, com o grande espírito, que está lá, no final de todas as nossas contradições. Queria chorar e não conseguia. Não havia chorado quando tinha perdido o meu emprego. Não tinha chorado quando minha Marilyn Monroe tinha ido dançar sua dança em outra freguesia. Nem quando minha mãe morrera. Nem quando papai... abro os olhos e estou sozinho novamente. A presença ainda ecoa no quarto, mas a escuridão reina. Deve haver uma nuvem cobrindo a lua. Deve haver uma nuvem cobrindo a minha vida. Me sinto solitário e vazio. Mas me sinto forte. Sinto um impulso momentâneo quando percebo minha fortaleza. Quero levantar e quebrar tudo, jogar todas as minhas coisas contra a parede. Quero fazer buracos na parede na porrada. Quero queimar e cuspir em tudo. Penso em rezar de novo, como a vovó havia me ensinado, mas não consigo.

Desembrulho o pacotinho. Ela sorri para mim. Coloco o cano frio e metálico na minha boca. Bum, e tudo passa, eu fico em paz. Só uma apertadinha, um leve movimento dos dedos, e todos os meus problemas estão solucionados. Não tem que procurar mais emprego, nem me humilhar diante de ninguém, nem sofrer por amor, ou fingir que eu amo. Puxo o gatilho. O barulho me dói nos ouvidos. Parece que eu nunca o ouvi antes. Como acontece sempre nesses dez anos. Respiro fundo e sinto que finalmente consigo chorar. Choro e me sinto alegre. Mas não consigo rir com aquele cano enfiado na minha boca. Mamãe, me espere, ou melhor, vem aqui buscar o seu filhinho. Ouço de novo a risada e vejo de novo o guarda-chuva. Despedido. Sozinho. Adeus. Click.

O som seco do gatilho me dói nos ossos. Tiro o cano da minha boca e seco a ponta da arma com um pedaço do lençol. Por que eu nunca lembro de comprar nenhuma munição? Tanto tempo, tantos anos tentando, e sempre falta a munição. Cuspo no pia o resto de saliva que não consigo engolir. Me matei mais um pouquinho hoje. Amanhã volto a vida de morto-vivo. Embrulho a pistola nos mesmos pedaços amarelados de jornal. Guardo de novo na gaveta. È como um ato religioso, repito cada movimento da mão, do corpo. Um dia alguém vai me olhar. Um dia eu vou ser livre. Vou comprar balas bem gostosas, docinhas, que derretem na boca. Mas hoje não. Está tarde. A lua está alta. Amanhã.


quarta-feira, 17 de março de 2010

os inquilinos

Hoje eu fui ver um filme.
Ele me fez sentir como há muito não me sentia: vazio.
Ele falava de coisas que eu não sou, mas eu sei que muita gente é.
Tocou na ferida.
Quando sai da sessão, a luz se acendeu. Dentro e fora de mim.
Fui andando e percebi o verniz das revistas nas bancas de jornal.
Eu peguei meu carro imaginário e comecei a contar os passos que fui dando.
Pé ante pé, no meu carango blindado de mentirinha. Protegido (de mentirinha).
Foi então que eu comecei a olhar em volta e eu vi que ali havia pessoas.
E qual não foi a minha surpresa quando percebi que elas eram

pessoas.

O verniz das revistas se desfizeram em pó,
Isso tudo se mostrou mais uma mentira.
As pessoas passavam, ora pouco, ora muitas,
na Paulista sem fim.
Elas estavam trabalhando,
elas estavam passseando
amando de maãos dadas,
estudando com suas mochilas nas costas
preocupados,
relaxados,
havia uma mulher carregando um carrinho com um bebê ao lado de
um mendigo carregando latinhas.
Uma senhoura à la Almodovar vendendo docinhos na porta do banco fechado.

A beleza se tornou fichinha.
Me senti pobre. Pobre de espírito, pobre de solidariedade,
Me senti como naquele filme bonito de se ver,
mas que mostrava só o vazio das pessoas.

Senti os cheiros de mijo e merda e comida infestando as ruas.
Senti o peso do cansaço das pessoas se arrastando para casa.
A rotina virou nicotina. Vi as pessoas fumando. Se fumando.
A rotina virou rotten , como diriam os ingleses.

Tá tudo oco de cupim. Vai ter que trocar.
Tento terminar o último verso, com esperança.
Tento, mas, agora, não sei.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Diário de bordo - 13-07-09 - Amsterdã

Aqui estou eu de novo para contar mais um dia da grande viagem. Só para fazer uma retrospectiva, para quem ainda não leu as outras entradas, eu e meu amigo fomos à Europa e passamos por paris, Copenhagen, algumas cidades da Finlândia e um dia em Tallinn. Depois, viajamos pra Amsterdã, pra fechar com chave de ouro nosso emocionante passeio.

Porém, eu percebia que a parte de Amsterdã seria a mais complicada pelos seguintes motivos: depois de quase 20 dias fora de casa, sofrendo fortes emoções, privações, dificuldades linguísticas, você acaba sentindo aquela vontade de estar em casa, fazendo nada, descansando. Era muita informação pra digerir, sensações, movimentos, fora que ainda não tínhamos nos livrado do jet-lag: no albergue na Holanda todos os dias eu era o primeiro a levantar às 5h da manhã, afinal, no Brasil já era meio-dia. Engraçado que somente com a aproximação do final da viagem eu fui sentir tal diferença mais fortemente.

Enfim, acordamos cedo nesse dia, que era uma segunda-feira e tomamos um café reforçado para terminar de arrumar as malas e partir para o aeroporto. Apesar do aeroporto de Helsinque ser menor e menos agitado que os outros, já termos feito check-in virtual, saímos com bastante folga, pois o trauma do voo perdido nos seguia a cada dia.

Embarcamos, mas nosso voo não era direto. Passamos por Copenhagen e deu uma saudadezinha, uma sensação de déjà-vu, mas passou logo. Essa sensação se repetia ao chegarmos ao Schiphol, que havia sido nosso primeiro contato com o solo europeu.

Ao sairmos do aeroporto, nos dirigimos ao metrô. Esse, diferente do lotado metrô parisiense e do futurista metrô dinamarquês, era bem parecido com o metrô de São Paulo.

Descemos na estação indicada e fomos andando. A rua do albergue tinha um nome um pouco estranho: Kloveniersburgwal. Até assusta, né? Mas chegamos na tal rua, que chamávamos de Rua do Clóvis pra lembrar melhor. O hostel era bem localizado, do lado do metrô, num canal. A organização nos deixou surpresos. Não apenas o quarto, recebíamos também o númeor da cama em que ficaríamos. O único problema era que o quarto ficava no 3o andar.

Assim que chegamos lá, guardamos a mala e fomos dar uma volta. O dia já estava acabando, por causa da nossa escala, mas ainda dava tempo de fazer algum passeio. O primeiro lugar que o Ed queria visitar era o famigerado bairro da luz vermelha. Eu não estava tão interessado em conhecer tal lugar. Primeiro, porque minha mente ainda estava no ritmo pacato da Finlândia.
Segundo, porque tava ficando escuro, e a gente tava num lugar diferente, desconhecido.

Foi engraçado ver as mulheres nas vitrines, as músicas, os turistas fazendo piadinhas. Teve uma rua onde presenciamos uma briga entre duas prostitutas em alguma língua que eu não soube reconhecer. Um barraco. Mas engraçado. Teve umas horas que eu sentia que tava sendo perseguido. Um rapazinho de boné, que ficava indo onde a gente ia. Era um lugar meio muvucado, e eu comecei a me sentir meio mal. Não era permitido tirar foto, havia placas em todos os lugares e não queríamos ir contra pra não arrumar confusão.

No fim, com essa espécie de mal-estar, com se ainda estivéssemos meio tontos, mudança de fuso-horário (e olha que só tínhamos voltado apenas uma hora no tempo), decidimos voltar pro hotel. No caminho de volta, observamos uns mictórios que ficam no meio da rua, muito engraçados, e aproveitamos pra fazer uso desse meio pouco convencional, assim, com todo mundo olhando a sua cara enquanto você se alivia.



Fomos procurar um lugar pra comer, e acabamos decidindo comer num restaurante de comida italiana. A música tava mó legal, os garçons muito simpáticos. Depois, fomos passear nos arredores do albergue e passamos na frente de uns barzinhos legais, de lojas já fechadas.

Depois, banho, planejamento do dia seguinte e cama.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Diario de bordo - 12-07-09 - Helsique

Depois de muito tempo contando as aventuras e desventuras pelo velho continente, aqui estou eu, novemente, pronto pra mais uma entrada que revelará as lembranças que tenho daquele dia.

Era um domingo. Nosso último dia na Finlândia. Acordamos de manhã, mas não tão cedo e o dia estava lindo. Um sol brilhante, uma brisa fresca. Após o café da manhã, nos dirigimos ao centro da cidade. Desde antes de viajar, eu sabia que a Finlândia é o país dos lagos. Tem lago em tudo e qualquer lugar e eu queria alugar um barco e ir remar. Precisava praticar todo o meu know-how no assunto: remada 1, remada 2, proa, popa. Tudo.

O J. conhecia um lugar muito legal, um lago não muito grande, onde o moço alugava barcos por hora pela bagatela de 10 €. O Ed se sentiu um pouco inseguro a princípio. E olha que o barco era bem mais estável do que aqueles onde costumo remar. Claro que como o proponente daquela atividade, eu tinha que começar remando. Com apenas um par de remos e o vento a favor, remei um tempinho até que os meninos quiseram assumir. O J se mostrou um ótimo remador. Coisa de gente que mora no país dos lagos. O Ed quis tentar também, e eu fui dando as insstruções, mão esquerda por cima, direita por baixo, imprime a mesma força com as duas mãos etc. Foi bem divertido. Ao final da uma hora, o apoio do remo começou a ranger e parecia que o barco gemia a cada remada. Sorte que foi só no final.



Depois, fomos até uma praça no centro e ficamos sentados ali. Era hora do almoço e as pessoas estavam ali sentadas, conversando, tomando um solzinho. O dia continuava lindo. Peguei meu caderno e pedi lições de finladês. Quase uma semana ali e eu não tinha aprendido quase nada. Isso era frustrante, pois na Dinamarca dois dias tinham sido o suficiente para que eu captasse algumas sutilezas da língua. Enquanto conversávamos, o Ed tirava fotos e uma das mais bonitas foi tirada ali, nesse momento de ócio:



O que decidimos fazer então foi visitar a Suommenlinna. A ida foi engraçada, havia umas velhas sentadas perto da gente e rimos bastante. Na ilha, fugimos dos aglomerados de turistas indo pra lá e pra cá. A ilha não é muito grande, mas passsamos a tarde toda lá. Fizemos piquenique pra almoçar. Tiramos muitas fotos, fazendo caras e bocas. Aproveitávamos ângulos, iluminação e o tempo livre pra nos divertimos. Foi aí que eu tentei imitar (de forma errônea) a pequena sereia dinamarquesa. Segue a cópia e o original.





Depois de voltarmos da ilha, fomos passeando pelo centro e pudemos ver como sempre as pessoas tocando nas ruas. O grupo tocava músicas clássica. Assistimos a parte do show e fomos adiante. Para casa. Uma janta super especial, cheia de cogumelos e de temperos exóticos. Demos o presente que trouxemos para nosso anfitrião, que diferente de nós, a essa altura estava vermelho como um pimentão. Mas percebi que todos estávamos muito felizes com aquela parte da viagem, na qual sonhos foram realizados, mais do que em qualquer outra. Poder sentar no banco da raça conversando com Sheela, que por mas de uma década tinha praticamente 2 dimensões, nas folhas de nossas cartas; ficar na casa do Jake. Foi tudo muito legal. Mas era hora de arrumar as malas. Ainda havia mais coisas para desbravarmos. Na manhã seguinte seguiríamos para a louca Amsterdã.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Letter to the dreamers - and the mirror



Ma chère Isabelle

Sua força falha e eu sinto
que o terremoto foi além de Richter.
Seus olhos brilhantes estão baixos.

I feel your back bend under
the weight of the world.
I feel I might have lost you.

Mas você fica ao meu lado,
Tremeluzindo e flamulando
Como vela ao vento.

I can identify the real you
under all such veils
urge to take you in my arms and soothe you
Lull you to sleep.

Você nunca perdeu.
Você foi uma das campeãs.
Mas onde era pra estar errada, acertou.

So I follow by your side.
We are siblings, and so are the wind and the fire.
We have one another to rely on
although having is just an illusion.

I learned to love you no less
But I saw it could not be more,
Maybe no one will ever make me.


Theo, mon amour:
Suddenly, there you are, being framed by the door
Smiling wildly as just you can do
Melting cold and hardened hearts.

Sua voz, flechas em chama, me sinto crispar.
Seu movimento é como ondas nas pedras. Tempo de tormenta.
Não te escuto, é apenas um quebrar de ondas contra rochas.

And you are here and gone and here again.
It seeems you are not to leave so soon.
As you always did. Because you were never really here.

Seu silêncio significando siga em frente
Ou um sinal de que nada sairá do lugar.
Certezas sofrendo mitoses. Fagocitando-se.

I don't care.
You're mine anyway, I never yours.
So the fight is over.

Vejo a mágica vindo de todos os lados.
Poesia enchendo cada um dos meus poros
Me inebrio e me sinto VIVO.

E agora o futuro se descortina
Como estrada serpenteando por montanhas e vales
Eu tremo, pego na sua mão vacilante.
E caminho com você.


***
your strenght falters and I feel
the earthquake is beyond Richter.
Your shining eyes are low.

Sinto seu torso dobrar-se sob
o peso do mundo.
Eu sinto que devo ter te perdido.

But you are by my side,
Glimmering and steaming
Like the candle in the wind.

Posso identificar quem você é de verdade
debaixo de todos esse véus
apressá-la aos meus braços e te acalmar
Te embalar no sono.

You never lost.
you were one of the champions.
But exactly where you were meant be be wrong, you were right.

Então sigo ao seu lado.
Somos irmãos, assim como o são o fogo e vento.
Temos um ao outro pra contarmos
ainda que ter seja só uma ilusão.

Aprendi a te amar mais
Mais percebi que não podia ser mais,
Talvez ninguém mais me faça fazer isso.



Theo, mon amour:
De repente, ali você estava na soleira
Sorrindo daquele jeito maroto que só você sabe
Derretendo corações frios e endurecidos.

Your voice, arrows in flames, I burn.
Your movement like waves on the rocks. Storm time.
I can't hear you, it's just the waves breaking on that rocky wall.

E você está aqui e se foi e está aqui de novo.
Parece que você não vai embora tão cedo.
Como sempre fez. Porque nunca esteve aqui de fato.

Your silence means go ahead
Or a sign nothing will move.
Certainties in mitoses. Phagocytizing themselves.

Não tou nem aí.
Você é meu de qualquer forma, eu nunca seu.
Então a luta acabou.

I see magic coming from all around.
Poetry filling each one of my pores
I fluster and feel ALIVE.

And now the future reveals itself
Like a road meandering mountains and valleys
I shiver, get your wobbly hand.
And I walk with you.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Operação Arqueologia: O ovo do dragão (2005)

A operação arqueologia vai trazer textos meus que eu for encontrando e que não constam aqui no blog, sejam em prosa ou em poesia. Assim, luto contra o tempo e faço vocês conhecerem melhor um pouquinho do que eu fui. Começo a série com uma história que escrevi em 2005, de presente pra uma amiga.

Há algum tempo atrás, numa terra não muito distante, havia um rei e uma rainha que governavam placidamente seu pequeno reinado. Apesar de todos os súditos gostarem deles, era de conhecimento público a fraqueza de caráter do rei, e a submissão excessiva pela qual a rainha passava para poder manter a própria sanidade e a ira do rei afastada. Assim, estabelecia-se uma aparência de paz, o que, então, aprazia o povo.
Com o tempo, a rainha ficou grávida, e ela deu à luz uma linda princesinha que um dia seria Rainha. O nascimento da pequena pérola foi deveras celebrado e muitos vieram das mais distantes terras para visitar aquele diamante em forma humana.
Com o passar do tempo, a pequena princesa crescia, e dava mostras de que além de uma beleza física invejável, ela também possuía uma clareza de espírito muito aguçada. Buscava ajudar as outras pessoas, indistintamente praticando a bondade, mas sem abnegação. Ela tinha discernimento para decidir os momentos em que podia exercitar essa bondade e as horas em que devia se retirar de cena, pois ela conhecia seus limites, e seus defeitos na mesma medida que suas virtudes.
Porém, quando a princesa completava seus primeiros anos de maturidade plena como adulta, chegou ao reinado um velho eremita. Aparentemente, ele poderia ser confundido com qualquer pescador da região, mas através seu sorriso bonachão e seus olhos expressivos, todas as pessoas sentiam que o peso dos anos não lhe fazia qualquer diferença. Era difícil ficar em sua presença sem sentir que seus olhos perscrutadores eram de certo modo invasivos. Porém, o ar de sabedoria do velho, perdoava-lhe este tipo de impressão, e ele tornou-se naquele lugar uma espécie de referência para os necessitados de uma palavra amiga, que os ajudasse a resolver a maior sorte de problemas.
Contudo, não se podia deixar enganar pela respeitabilidade do ancião. Ainda que seus olhos fossem macilentos e preguiçosos, e seus cabelos todos da mais pura alvura, sua alma era tenaz e suas intenções, negras. Ela havia levado para a cidade algo que poucos possuem, mas que se bem manejado, podia causar muitos estragos: um ovo de dragão.
Apesar de conhecidos por sua volatilidade e inflamação, os dragões dependem de certas condições especiais para nascer. Assim como as aves ou répteis, a maturação do ovo depende da temperatura ambiente. Entretanto, por mais contra-sensual que pareça, ao invés de fogueiras ou do calor extremo, o ovo de dragão tende a se desenvolver num ambiente frio e ácido. Normalmente, quanto mais úmido, melhor, porém, de uma umidade bastante específica. Ao chegar no pequeno reinado, o velho ainda não tinha certeza, mas sabia que lá talvez, isso lhe dizia sua intuição, era o lugar perfeito para que o ovo atingisse sua plenitude. De fato, todas aquelas propriedades não diziam respeito ao clima natural. Afinal, ali, o clima era ameno, e não havia sequer neve no inverno. Os dias eram mornos e as noites um pouco frias, mas na medida certa para que nem mesmo as lareiras fossem necessárias.
Porém, o sucesso do processo de incubação dependia de como as pessoas reagiam umas com relação às outra. E a experiência do velho, os anos de amargura e de maldades haviam treinado seus olhos para perceber as sutilezas dos homens, e localizar as condições para que sua ambição se concretizasse.
Não se mostrou uma tarefa difícil, já que a predisposição daquele povo para a mentira, para a apatia, para a dor era tão forte. O homem, aproveitando-se da autoridade que tacitamente se lhe concedia, apontava para o pior que existia em cada um, espalhando a vileza, tornando comum o sofrimento, fazendo com que a mera presença do outro fosse uma tarefa praticamente insuportável.
Existia, todavia, um obstáculo para que o ovo do dragão pudesse atingir o ponto de maturação completa. Existia ali, uma pessoa que representava um Ideal díspar daquele que o velho desejava disseminar: a princesa que seria Rainha. Assim, ele desenvolveu um plano que alguns chamariam de sinistro, outros, de esperado. Ele começou a convencer o povo que na verdade, a beleza que fazia a princesa tão cara a todos, era senão uma ilusão. Muito ao contrário, ele queria demonstrar, que o que o povo até então celebrava, era nada menos que a forma mais pervertida de feiúra e monstruosidade.
Certamente, muitos se quedavam céticos a este respeito. Alguns questionaram o velho, tentando entender sua maneira tergiverstória de pensamento, o que ele dizia ser sua complexidade. Porém, estes logo se desinteressaram do assunto e não foi muito difícil de convencê-los, e a todos da veracidade de suas afirmações. Nesse reino, diferente de muitos outros, não havia uma grande figura, no máximo alguns quixotes, mas ninguém que conseguisse manter a integridade diante da estonteante sabedoria do velho ancião. Assim, se a princesa dependia de alguém, além de si própria, ela estava em maus lençóis.
E num momento de fraqueza, ela se viu duvidando de si própria, e neste momento, por mais que tenha durado apenas alguns segundos, forças da natureza que são indescritíveis entraram em ação, e o céus se nublaram, as árvores murcharam, como se curvadas diante de algo que nem elas próprias entendiam, os pássaros calaram e, como se por mágica, não havia mais borboletas, nem libélulas à vista.
O velho, muito perspicaz, soube ler nas entrelinhas os sinais que a natureza emanava, e deu-se por satisfeito. Natus est. Ecce draco animarum devorator. (Nasceu. Eis o dragão devorador de almas).
Entrementes, o que ocorria com a princesa, era deveras intrigante. Antes, muitos dos homens do reino e de terras vizinhas, vinham até o palácio, apenas na esperança de pousarem os olhos sobre a face da formosa donzela. Muitos eram os pagens do castelo que lutavam para atendê-la mais prontamente, o que causava orgulho em seus pais, os soberanos. Agora, a princesa não recebia mais a visita de ninguém, os homens passaram a ignorá-la e mesmo a evitá-la. Os pagens não mais atendiam aos seus chamados, e buscavam transferir para outrem a tarefa de banhá-la e fazer-lhe a toalete. Pouco a pouco, também se operou uma mudança com seus pais, o brilho de orgulho que reluzia em seus olhos foi gradativamente se apagando, e foi substituído por uma sensação de estranheza e vergonha. Quem era aquela estranha que havia sequestrado a bela princesa?
Evidentemente, ela sentia todas essas mudanças de forma pungente. Ainda que pensasse que sua beleza interna – a qual consistia em sua delicadeza, espiritualidade, bondade – continuasse a existir em sua forma mais pura, o senso de que isso era uma rebeldia. E a crença de que nos olhos dos outros jazia a verdade sobre quem ela era na verdade, de que sua antiga vivacidade realmente havia lhe sido desvestida, como se fosse trapo velho imperavam. Olhar-se no espelho tornou-se um fardo, pois o reflexo não era o de si própria, mas sim o de uma estranha, de uma outra. Toda sua noção espacial estava alterada, suas curvas amplificadas, e os outros, ao invés de mostrarem o quanto aquilo era ilusório, só reverberavam suas opiniões e juízos.
O dragão, que crescia cada vez mais, não se nutria dos alimentos que a natureza oferecia, mas daquilo que sentiam os homens que o circundavam, aproveitando-se dos conhecimentos que lhe haviam sido conferidos pela linha genética draconiana. Eis um conhecimento Milenar que passava de dragão para dragão, percebia que o tênue feitiço que havia lançado o velho sobre a cidade podia pôr-se à deriva, caso um único elemento saísse daquela ordem, daquela conformação. Dessa maneira, também como uma forma de se auto-preservar, o dragão lançou um feitiço e, durante o sono da princesa , disfarçado na figura de um gato, ele pode furtivamente se apoderar da beleza da princesa, mas sabendo que não podia destruir tal dádiva, teve que encarcera-la numa bola de cristal. Ele sabia que um dia, a princesa poderia quebrar o feitiço e para que isso se desse era necessário apenas que ela pedisse a ele, de volta, aquilo que lhe pertencia por direito. Ele se tornou, de ladrão, no guardião daquela jóia, e esperaria a eternidade, esperando nunca ter que a devolver.
Do dia seguinte em diante, não mais podia a princesa, que seria Rainha, se olhar no espelho, e mesmo em seu reflexo embaçado no cálice, nos olhos das pessoas, ela só podia ter uma constatação positiva de sua monstruosidade, de sua feiúra.
A única pessoa que podia salvar a princesa, naquela circunstância seria ela mesma. A partir do momento em que ela visse por trás do véu da ilusão, como ela era a personificação de um tipo de beleza muito cara, e muito rara, o feitiço se quebraria e ela voltaria a sorrir. E por mais que ela não conseguisse fazer com que as outras pessoas olhassem também através do véu, ela ainda assim saberia que se tivesse o conhecimento e a força de espírito para pedir de volta aquilo que lhe havia sido extirpado, ela poderia ser novamente completa, apenas ela.